terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Registro dos sentidos - texto 4 - prof. Adelar

Construção
Chico Buarque
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado




Chico Buarque faz uma brincadeira nos atos diários de um trabalhador da construção civil, onde ele era feliz em sua vida simples, em que amava intensamente sua mulher e filhos, cumpria seus deveres no trabalho braçal da construção civil com maestria, precisão e sem questionamento na qual era comparado a uma máquina.
Sua condição social é evidenciada no trecho em que cita: “seus passos tímidos” e “comeu feijão com arroz como se fosse príncipe”.
Gozava a vida intensamente em cada momento, tanto no trabalho como em casa com a família, em seu horário de folga, como tudo que fazia havia intensidade, como todo trabalhador de classe social baixa, faz ingestão de bebida alcoólica.
“E tropeçou no céu como se fosse um bêbado”, dá idéia da altura dos prédios no qual o homem trabalhava, “flutuando no ar como se fosse pássaro” ate cair no chão e  morrer  no meio fio, atrapalhando o transito.
Uma historia corriqueira de um trabalhador carioca em que as pessoas não ficam impressionadas com os acidentes e a morte de uma pessoa simples, se tornando simplesmente um problema para atrapalhar o transito.
Seria um fato isolado se não fosse a poesia metafórica de Chico ao contar esse fim trágico.
Logo após chico faz um jogo de palavras com as frases anteriores, na qual faz uma analise da vida e os últimos momentos  desse homem que morreu em um acidente de trabalho.
 

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